Viver com 100 coisas

março 24, 2015


O livro "O Desafio das 100 coisas" do Dave Bruno conta a sua experiência de viver um ano com apenas 100 objetos pessoais, incluindo roupa, calçado e outros objetos de uso exclusivamente individual. 
Para ser sincera, o livro desiludiu-me um pouco, estava à espera de mais. O autor torna-se muitas vezes repetitivo, a determinada altura cansa a leitura consecutiva das expressões "O Desafio das 100 coisas" e "O consumismo ao estilo americano", sem abreviar. Penso que o livro resumia-se muito bem só com os dois últimos capítulos que tem alguns conteúdos práticos e algumas ideias interessantes que aborda ao longo do livro. Nos primeiros capítulos, Dave descreve em detalhe como surgiu a ideia de fazer o desafio e depois o autor relata toda a sua experiência, antes e no decorrer do desafio. Mesmo achando o livro um pouco aborrecido consegui retirar algumas ideias inspiradoras, que gostava de partilhar (já tinha referido o livro neste post). 

"Que possamos viver na Terra vidas recheadas de alegria e reflexão, e que não sejamos mais tarde lembrados pelas nossas posses mas sim pelas dádivas que partiram dos nossos corações"

A verdade é que compramos coisas, ano após ano, uma e outra vez, em busca de alguma satisfação. Valorizamos simplesmente o que é novidade, em detrimento dos objectos com os quais poderíamos contentar-nos e limitar-nos a desfrutar. Dave afirma ainda que o problema não era o caos, o excesso de coisas acumuladas, mas os objectos em si, que desviavam a sua atenção daquilo que era realmente importante na sua vida. O desafio das 100 coisas levou o autor a repensar tudo na sua vida, não apenas a "tralha". Ao longo do desafio perguntou a si próprio em que medida é que possuir demasiadas coisas estava a afectar a sua vida. E não resistiu a aplicar a mesma fórmula para questionar outros aspectos da sua vida. 

Gostei da explicação do significado da palavra "consumidor", pois actualmente tem conotações positivas - enquanto clientes e compradores somos consumidores. Consumidor hoje em dia é alguém que compra alguma coisa. No entanto no significado original, o consumidor é aquele que consome, desperdiça, esbanja ou destroi.
"Muito do que despreocupadamente consumimos (isto é, compramos) literalmente consumimos (isto é destruímos)". Mas o problema não é consumir...é consumir mais do que o necessário. O consumo em excesso é um principio assente da nossa sociedade de consumo. Sabemos à partida que não só compramos mais do que precisamos como compramos mais do que verdadeiramente queríamos. A sociedade incute-nos vontades.

Agora falando do desafio das 100 coisas. O autor definiu algumas regras: 
1ª - "O desafio é meu" - o desafio é um sacrifício pessoal e não é algo que pretende impor aos outros, sobretudo à família. O autor determina as regras do desafio e as suas possíveis flexibilidades.
2ª - "Definição de objetos pessoais" - são aqueles que são só do autor de uso individual, ou seja, os objetos partilhados por toda a família e as coisas da casa não entram na categoria de bens pessoais.
3ª - "Recordações" - inicialmente pensou em conservar uma caixa de recordações, mas acabou por decidir ficar apenas com uma bíblia dada pelo seu pai.
4ª - "Livros" - o autor considerou todos os seus livros como um único objeto: biblioteca.
5ª - "Alguns itens foram agrupados" - como por exemplo o conjunto de cuecas, camisolas interiores ou meias conta como um item.
6ª - "Objetos da casa" - como algumas ferramentas para uso pontual em casa não entrariam na sua lista.
7ª - "Presentes" - se receber alguma prenda terá 7 dias para decidir o que fazer com ela, se mantinha ou eliminava. Ao manter e se ultrapassasse os 100 itens teria de abdicar de qualquer outra coisa da lista.
8ª - "Novos objetos" - era permitido adquirir coisas novas, desde que nunca ultrapassasse os 100 objetos. Para entrar um novo devia sair um velho.

Alguns pensamentos do autor durante o ano em que decorreu o desafio e que me fez refletir:
> Para viver uma vida de simplicidade não basta viver uma vida de desprendimento das coisas materiais nem é preciso fugir. É precisamente o oposto. Libertar-se das amarras do consumismo não significa libertar-se de tudo; e sim, uma forma de se vincular ao lugar onde verdadeiramente pertence - "Contenta-te com o que tens e transforma a tua vida em algo melhor ainda". 

> Há pessoas que são como a formiga que tudo armazena e por isso guardam coisas que não usam, porque não são capazes de deitá-las fora ou dá-las para a caridade. O desafio revelou-se uma ótima forma do autor livrar-se das coisas que nunca iriam reparar o seu passado nem fazer de si uma pessoa que não era.

> A publicidade e a política de vendas que encontramos no centro comercial parecem vocacionadas para nos ajudar a termos cada vez menos noção de quem somos e cada vez mais preocupações sobre quem não somos.

> Uma questão muito pertinente que o autor faz: "Porque é que damos tanta atenção aos bens materiais quando as pessoas são tão mais interessantes?" A vida é praticamente a mesma se não tivermos uma abundância de coisas, a única diferença é que sem a tralha há mais espaço de manobra para aproveitarmos a vida ao máximo e dedicarmos mais tempo ao que realmente é importante para nós e as pessoas que amamos. 

No final do livro o autor dá-nos um guia prático para quem quer fazer o desafio:
Formulou duas perguntas que são uma forma de avaliar se o Desafio é ou não o ideal para nós:
          Pergunta 1 - Sente-se incomodado todos os dias pelo facto de possuir demasiada tralha?
          Pergunta 2 - Sinceramente?
Se respondeu "Sim" a estas 2 perguntas, Dave diz que deveriamos considerar a hipótese de colocar em pratica um Desafio das 100 coisas. Se a resposta foi "Não" talvez o melhor seja adiar por uns tempos. 

Quando este desafio foi publicado, despertou a atenção de muitas pessoas (muitos até criticar as regras do autor, mas como ele próprio diz: o desafio é dele e "a perfeição não é aquilo que define a essência da simplicidade"). 
Existem diversas razões para se querer fazer o Desafio: para equilibrar as finanças pessoais, para arrumar a casa, para eliminar um hábito de compras nocivo. O factor mais importante para o autor era querer libertar- se da pressão da constante sensação de que precisava de comprar coisas para se sentir satisfeito. 

Para se fazer o desafio é preciso seguir os 3R's: reduzir, recusar e reajustar (a vida, os princípios e os hábitos) para se viver com menos coisas.
Reduzir - O autor sugere que começamos a reduzir pela roupa, porque a maioria das pessoas pensa que o seu guarda-roupa e o principal impedimento e porque normalmente toda a gente possui demasiadas roupas. Depois de passar a fase do armário, o autor sugere que se faça a "depuração" da casa por zonas: wc, cozinha, sala, etc...

Recusar - O autor identifica 3 grandes fontes de tentação: os amigos e outras pessoas que insistem em dar-nos coisas ou a ridicularizar o desafio, pois irá provocar uma sensação desagradável nelas; os centros comerciais e a televisão (com toda a publicidade que esta contém). Devemos evitar estes contextos e estarmos preparados para recusar. 

Reajustar - Reajustar para organizar os nossos bens materiais de uma forma diferente e para reformular o nosso estilo de vida. Certifique-se de que as suas prioridades, uma vez reajustadas, prendem-se com tornar o mundo real num lugar melhor e fazer com que as pessoas a sua volta se sintam acarinhadas. 

Recomendação final do autor:
"Tenha cuidado ao fazer o Desafio das 100 coisas. É altamente provável que depois de o fazer se sinta satisfeito mesmo possuindo poucas coisas. Descobrirá que já não tem a compulsão de querer comprar mais e mais. E então terá de arranjar uma nova forma, sem ser ir às compras, de empregar o seu tempo, dinheiro e talentos".

Eu não vou fazer literalmente o desafio, porque não sinto necessidade para tal, mas talvez faça só no papel....escrever os objetos que tenho e ver qual é o número. Simplesmente por curiosidade!

(Este post ficou um pouco longo, mas queria registar aqui o que me marcou mais neste livro!)  

8 comentários

  1. Olá Raquel, não ficou nada longo! Eu adorei ler, confesso. Já tinha lido sobre o desafio mas já foi há tanto tempo que já não lembrava de certas coisas! Obrigada pela partilhada. O teu blog é sem dúvida uns dos que mais gosto de ler hoje em dia :)
    Beijinho

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    1. Olá Ana! Fico tão contente por gostar de ler o que escrevo! O teu blog foi sempre para mim uma inspiração...foi um dos que me deu incentivo para seguir um estilo de vida mais simples e também para começar a escrever o meu próprio blog, por isso é tão bom saber que gostas de o ler :)
      Beijinho enorme e uma boa semana!

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  2. É sempre inspirador ler este tipo de experiências de outras pessoas com semelhanças na filosofia de vida! E pra mais é um registo da tua leitura, obrigado pela partilha =)

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    1. Olá minha querida Fátima! Sei que também já leste este livro :) É sempre bom escrevermos sobre os livros que lemos, não só para partilhar mas para deixar um registo do que mais nos marcou da leitura!
      Um beijinho grande :)

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  3. O post pode ser longo, mas muito agradável de ler, pode ter a certeza Raquel :)
    Já me fez pensar, (mais uma vez, a Raquel faz-me pensar muito:D, mas é bom para mim ;)) e também não iria fazer o desafio, porque não me enquadro, mas é interessante os conselhos que nos dá :) Aprendemos sempre alguma coisa :) Gostei muito, obrigado por estas partilhas, boas ;)

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    1. Obrigada minha querida Sandra! Eu gosto muito de partilhar estas coisas que nos fazem pensar na vida que queremos levar. E quando o assunto é sobre simplificar a vida melhor! :)
      Beijinhos grandes

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  4. Minha querida!
    Na minha opinião o post não ficou nada longo. E digo isto pois adoro ler o que escreves, o teu blog é sempre um cantinho aonde eu encontro inspiração e alento para seguir o meu caminho aonde cada vez mais "menos é mais".
    Por isso só tenho a agradecer pela partilha que aqui fizeste, e mais uma vez aproveito também para te agradecer toda a partilha que aqui fazes.
    Beijinho enorme

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    1. Obrigada Catarina por tudo o que escreves-te! É muito bom ler estas palavras e saber que o que escrever inspira os outros :)
      Beijinhos grandes!

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